Às vezes me sinto identificada com os discípulos, em situações em que me «fecho» por medo do que vão dizer, do que vão pensar… e tantos outras questões que reconheço não têm sentido, porque a única coisa que consigo é me prejudicar, me paralisar, não me realizar como pessoa, como mulher, como cristã.
Acontece também que Jesus quer romper as fronteiras, e quer continuar entrando na minha vida de jeitos diferentes, que eu não posso -e não quero- evitar, embora geralmente seja quando é mais difícil reconhecê-lo. Mas no final, quando estou ciente desse encontro, sinto a sua paz e me leva a sair, o que é o contrário de me fechar; ser livre, viver o projeto que escolhi, meu compromisso cristão; viver este envio do meu ser lá, onde eu esteja, onde estou.
No final, é Ele quem vence. E no meio dos momentos de desânimo, de dúvidas… apesar de todo, uno-me às palavras de Tomás: «Meu Senhor e Meu Deus!» (Jo 20, 28)
Hoje, Quinta-feira Santa, celebramos o dia da Ceia do Senhor, o dia da Eucaristia… como nos recorda São Paulo na sua carta aos Coríntios (1 Cor 11, 23-26). E por outro lado, o Evangelho não diz nada sobre Pão ou Vinho, embora… seja o outro lado da mesma moeda.
Jesus diz: «Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais «Mestre« e «Senhor«, e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz» (Jo 13,12-15).
Quem recebe a comunhão compromete-se a seguir Jesus e Ele, neste gesto de lavar os pés dos seus discípulos, reflete-nos a sua vida de serviço. A verdadeira Eucaristia, o verdadeiro ato de participação na comunhão, deve refletir-se no serviço mútuo, não só aos outros.
Servir aos outros e não deixar que me sirvam, não reconhecer que também tenho necessidades, não viver o amor verdadeiro que é mútuo, acaba sendo um serviço do egoísmo, do me sentir mais. Em vez disso, Jesus sendo o Mestre, servido com humildade e amor verdadeiro, amor sem limites.
Senhor, obrigada por estar presente a nós com a Eucaristia e por nos lembrar do compromisso que isso implica, por nos lembrar do verdadeiro serviço recíproco, serviço por amor, serviço com humildade.
Reconheço que às vezes é difícil falar sobre fé, principalmente quando você está com pessoas que não acreditam e pedem que você demonstre o indemonstrável. Para os crentes, às vezes vemos a presença de Jesus nas nossas vidas, mas não o vemos fisicamente, não podemos tocá-lo ou falar com ele face a face – do ponto de vista literal, não metafórico – que é o que outras pessoas pedem.
Os judeus perguntaram a Jesus algo assim: «Nem sequer cinquenta anos tens, e viste Abraão!» (Jo 8, 57).
Em situações semelhantes, eu pessoalmente não discuto. Digo simplesmente que acredito e que dá sentido à minha vida, embora em muitos casos nem precise dizer isso, pelo menos com as pessoas que me conhecem e sabem que sou Irmã e -de forma mais concreta – faço parte da Família Filhas da Cruz.
Só vem a minha mente a canção do Padre Zenzinho: Jesus Cristo é meu amigo.
Ao ler o Evangelho do Pai Misericordioso (Lc 15,11-32), me veio à mente uma oração que escrevi em outro momento e que compartilho agora.
Senhor, sei que Tu me olhas com carinho, embora ainda eu esteja longe. Tuas entranhas se movem quando vês minhas roupas rasgadas… quando me vês quebrada por dentro. Corres em minha direção para que eu chegue o mais rápido possível ao teu encontro e tire um peso de cima de mim. Porque muitas vezes, os últimos passos para estar contigo são os que mais me pesam, mesmo que eu tenha preparado alguma frase para pedir desculpas e quebrar o silêncio frio que tive contigo Mas Tu, sem esperar que eu te diga algo, me abraças e me beijas refletindo teu amor, fazendo meu coração bater forte, me enchendo de alegria e esperança. Obrigada, Senhor, por me impedir de falar neste momento, por me deixar te abraçar, por sentir tua misericórdia, tua paz, teu amor… de dentro.
SERVIR… Com esta palavra permaneço, pois: «Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos serve» (Mt 23, 11).
Mas não servir de qualquer jeito, por qualquer motivação, porque posso cair como os «escribas», os «fariseus» e como muitas outras pessoas que não vivem esse serviço com verdadeira sinceridade, querendo ajudar, dignificar a pessoa. Posso fazer esta entrega – embora não deva chamá-la assim – por orgulho, por querer ser a primeira; posso fazê-lo sem ter uma verdadeira motivação de serviço com humildade, com amor.
Acredito também que sempre temos momentos para servir e de formas muito diferentes: ora pontuais e ora regulares (semanal, mensal…); atendendo diretamente a pessoa ou através de Cáritas, CEBs (Comunidades Eclesiais de Base)… ou outro grupo ou organização que vive para atender pessoas carentes.
Existem necessidades muito diferentes que exigem esforço físico, de escuta, psicológico… ou de tudo.
Esta é a chave para seguir Jesus, para tornar viva a sua Palavra: servir por amor, ser um verdadeiro servo.
Obrigada, Senhor, por nos ensinar qual é teu verdadeiro ensinamento, teu verdadeiro serviço. Obrigada por nos ensinar com palavras e ações.
Estes últimos dias do ano estou com a agenda mais ocupada. Aconteceu também que numa visita que eu queria fazer, a data foi mudada, devido a diferentes compromissos que vinham com a pessoa que ia visitar, tendo em conta o tempo livre que tinham aqueles que me iam levar àquele local.
Por fim, consegui fazer aquela desejada visita no dia 24 de dezembro à tarde, justamente quando Jesus vai nascer em uma manjedoura.
Um texto do Papa Francisco de 2019 me veio à mente: «Do Presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado». Ele compartilhou tanto com os últimos que foi colocado no recipiente onde o gado come!
A verdade é que naquele dia especial, fui conhecer o local e falar com um Irmão que acolhe os últimos. Acolhe os pobres sem casa, sem família, sem amizade; às pessoas com dependência química, com doenças, com histórias que só elas saberão na sua totalidade. Na sua casa, dependendo e confiando nas pessoas caridosas, acolhe-as, alimenta-as, cuida delas… dá-lhes dignidade… partilha o amor de Deus por elas.
Nesta tarde de Natal, senti que Jesus nasceria no meio daqueles rejeitados e pobres, mas acolhido e cuidado por este Irmão, que prepara e dignifica a manjedoura, para que aí Jesus nasça, no meio das diferentes situações e histórias vividas por aqueles homens, e ele os alegra com seu sorriso contagiante, como fazem todas as crianças apesar de não as conhecerem.
Obrigada, Jesus, por me dar a oportunidade de vê-lo nascer numa manjedoura em «Belém», em uma pobreza – não distante – onde posso continuar a vê-lo crescer e reconhecê-lo nos outros dias do ano.
Mesmos que os montes se retirem e as colinas vacilem, meu amor nunca vai se afastar de você, minha aliança de paz não vacilará, diz Javé, que se compadece de você. (Is 54, 10)
O Senhor me ama, -ele nos ama-, assim como eu sou, -como nós-.
Ele vai me e vai nos continuar amando, apesar das mudanças pessoais que estamos fazendo na vida, algumas para melhor e outras para pior.
Ele não estabelece condições para ser amada e amado por Ele. Ele não muda seu amor, nem a curto prazo nem a longo prazo. É sempre igual, é sempre incondicional, é sempre um amor sem limites, um amor até dar a vida.
Ele nos ensina o que é o amor verdadeiro. Outra coisa é que sejamos conscientes disso, estajamos atentos para vê-lo, para senti-lo.
O que mais nós queremos?…
Obrigada, Senhor, por não mudar o teu amor, por dizer de maneiras diferentes que nos amas e por fazer isso todos os dias, mesmo que nem sempre estejamos conscientes disso.
No dia de Santo André e de alguns dos discípulos, tem como Evangelho o chamado a ser pescador de homens (Mt 4, 18-22).
Ao ler o mesmo Evangelho várias vezes no ano, posso cair na frase quase automática de «esse texto de novo!» Mas dependendo do tom que eu dei, a sensação é muito diferente.
Posso vivê-lo raciocinando novamente que posso ser um daqueles pescadores ou pescadoras que Jesus chama, ficando só de cabeça, sem coragem, vivendo com o cansaço de tanta repetição.
Ou posso sentir novamente aquele chamado e impulso de segui-lo, de reconhecer que Ele segue confiando em mim, de perceber que, apesar das quedas, ele continua a me chamar. É para recordar que o compromisso não é vivido só no dia do baptismo, da primeira Eucaristia, da confirmação… O compromisso como cristão é vivido e renovado todos os dias.
Senhor, com a tua graça e impulso quero continuar a renovar o compromisso de pescadora de homens e mulheres, o compromisso de compartilhar a fé que Tu nos tem ensinado. Obrigada por continuar me chamando com meu nome.
Acho bom lembrar o exemplo de Zaqueu em tempos de crise, de sentir um peso enorme pelo meu jeito de ser, de ver quase só o meu lado negativo.
E é que ele, apesar da barreira social que tinha pelo seu trabalho e da barreira física pela sua baixa estatura, «subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali» (Lc 19,4). Ele não se deixou dominar pelo negativo, mas buscou algo que lhe desse a possibilidade de ver Jesus.
Não diz quanto tempo ele teve de esperar lá para vê-lo. Pode ser um pouco ou muito, dependendo do que você considera um valor ou outro. Além disso, às vezes não é o que é, mas o que parece, por exatamente cinco minutos, pode se tornar eterno.
O que fica claro é que Zaqueu teve paciência de esperá-lo na figueira. E para mim essa é a chave.
Em meio a esses momentos de desolação, onde me sinto longe dEle -embora não seja verdade, porque Ele nunca nos abandona-, posso colocar os meios para poder vê-Lo, na capela, na paróquia, no lugar que me ajuda a encontrá-lo, sabendo que terei que esperar muito tempo, que demorará muito – porque diante das dificuldades parece que tudo vai mais devagar -, mas com a esperança de «vê-lo de perto» em algum momento, de sentir que ele levanta os olhos para me olhar e me ligar. Viver o presente com a esperança de um encontro simples com ele, que me encoraje a segui-lo e a levantar-me para continuar a dar passos, para continuar a «crescer».
Posso subir no ramo de uma figueira ou em outra árvore ou arbusto. E se por acaso for alto, sei que terei a ajuda de quem o fizer.
Reconheço que já subi várias vezes e terei que continuar subindo, como ser humano. Mas também sei que Ele continua a acontecer e a estar em minha vida. O que tenho que fazer é arranjar meios para me ajudar a vê-lo no meu caminho e a ouvir com mais clareza: «desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa».
Obrigada, Senhor, pelos encontros vividos depois dos momentos difíceis; pelos momentos que pude te ouvir mais claramente da figueira e eles vieram transformar minha vida aos poucos.
O Evangelho de hoje já nos fala sobre o fim da nossa vida na terra, que, além disso, com o descaso que temos com ela, e que quem governa não tem capacidade de se comprometer a ter mais cuidado com a nossa terra, eu acredito que vamos acabar com ela antes do previsto.
Ao escrever a palavra «previsto», vieram-nos à mente as diferentes datas possíveis do fim do mundo que de vez em quando surgem e que falavam especialmente desse assunto quando chegou o novo milénio. No entanto, continuamos vivendo. A verdade é que nem mesmo Jesus sabia, como diz em Mc 13, 32: «Quanto àquele dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas somente o Pai».
De qualquer forma, a frase que mais me toca por dentro é: «O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão».
É claro que suas palavras não passaram em vão, quando as lemos com certa freqüência, rezamos, refletimos sobre elas… Elas nos tocaram de tal maneira que não passaram, mas penetraram, que elas se tornaram uma grande parte do «nosso alimento», da nossa energia que nos move a viver de uma maneira específica.
A verdade é que se passaram dois mil anos e continuamos nos encontrando em seu nome.
Lembro-me de quando estive no Brasil, como em muitas celebrações, quando ia começar a Liturgia da Palavra, o momento das leituras, levavam a Palavra para o altar cantando e dançando, destacando assim a sua importância na Eucaristia como o fonte e culminância de toda a vida cristã (LG 11).
Então, cada pessoa tem suas frases favoritas; frases que mais nos tocaram em um determinado momento ou que são uma referência ao longo de nossas vidas.
Expressando-me como Salomé Arricibita na sua canção «Tua Palavra», o meu desejo é continuar a semeá-la em cada pessoa, em mim, como a chuva que penetra e faz germinar, despertando e germinando uma vida que a vive, que vive a Palavra.
Mas também gosto muito do canto do P. Zé Vicente e muito mas com o jeito que tenho dito, com a dança.